Árvores fazem sombra, melhoram o clima, oferecem alimento para pássaros e
todo o resto da fauna, transpiram um monte de água que aumenta a umidade
do ar...
Aí mora o problema.
Temos plantado árvores, inclusive onde não elas não deveriam estar.
Muitas regiões não podem sustentar árvores porque não existe água disponível no
solo para elas, seja porque chove pouco, seja porque o solo é muito arenoso e não segura a água.
Nestes locais costuma existir uma flora adaptada ao stress hídrico (sim, as plantas também sofrem stress). Trocar esta flora nativa e adaptada por árvores significa levá-la à extinção.
Uma revisão recente na Revista Science apontou 504 trabalhos de pesquisa em locais onde o plantio de árvores reduziu a quantidade de água no solo, com todos os problemas decorrentes, causado pelo tanto de água que estas árvores evapotranspiram (na vegetação a coisa é uma mistura de evaporação e transpiração). E menos água no solo implica em menos água no rio.
A coisa não termina por aí. A retirada intensa de nutrientes que estas árvores plantadas promovem termina por acidificar o solo. Solo mais ácido é solo que perde nutrientes mais rápido. Junte uma coisa com outra e você tem rios com menos água e mais nutrientes. Morte de rio à vista.
Mas algumas vezes você acha que está fazendo bem, e está fazendo bem mesmo. A situação é totalmente diferente nos locais onde sempre existiram árvores. Onde solo e clima são capazes de manter árvores, elas tiram água de um solo que não é tão seco, e portanto ela não faz tanta falta. Esta água, minuto a minuto vai para as camadas baixas da atmosfera, até o limite em que acaba chovendo de volta. Regiões que perderam suas árvores costumam reduzir a freqüência de chuvas.
Árvores também limpam, absorvem os nutrientes contidos na água que desce morro abaixo. Elas são um filtro vivo, com todos outros benefícios. Mais nutriente no solo e menos na água significa ecossistema se restaurando à vista.
A conclusão é que a diferença entre o bem e o mal muitas vezes depende da hora e do lugar.
Texto escrito por: Efraim Rodrigues, Ph.D. (efraim@efraim.com.br) é Doutor pela Universidade de Harvard, professor Associado de Recursos Naturais da Universidade Estadual de Londrina, consultor do programa FODEPAL da FAO-ONU, autor dos livros Biologia da Conservação e Histórias Impublicáveis sobre trabalhos acadêmicos e seus autores. Nos fins de semana ajuda escolas do Vale do Paraíba-SP, Brasília-DF, Curitiba e Londrina-PR a transformar lixo de cozinha em adubo orgânico e a coletar água da chuva.