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Texto publicado em 01/11/2009* - 16:46, domingo.por Cassiano Santos Cabral
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Retornar e lembrar
É engraçado retornar a cidade natal depois de algum tempo. Muitas coisas parecem ter mudado. Claro que visitei Porto Alegre durante esses cinco anos, mas de passagem e não para ficar. Olhar a cidade com olhos de turista é diferente do olhar do morador. A cada rua que se passa se descobre algo novo, um edifício em construção, uma loja que inaugurou, uma pizzaria nova e outra que não existe mais e tantas coisas que ficaram e ficarão.

O por-do-sol da capital gaúcha é um espetáculo à parte. Sempre têm pessoas que se reúnem, à beira do Guaíba, para apreciá-lo. É um daqueles instantes mágicos da vida, onde tudo se concentra num único momento, o qual é multiplicado em tantos que se propagam nas diversas cores do vermelho ao alaranjado do poente. O reflexo dourado do sol se projeta nas águas do rio como se fosse um imenso véu de noiva em lua de mel com a cidade.

Os jacarandás roxos enfeitam a cidade e formam um tapete florido que conduz as pessoas a ruas encantadas, tais como, a Dinarte Ribeiro, no Moinhos de Vento. A Padre Chagas continua como uma rua exponencial da velha Porto Alegre, com seu toque refinado, bares sofisticados com mesas nas calçadas, com um estilo europeu no sul do Brasil.

A ligação com Porto Alegre é indissolúvel. Passo todos os dias em frente ao hospital onde nasci. Encontro velhos conhecidos nas ruas. O mercado da esquina da casa dos meus pais está ampliado. Algumas pessoas mais velhas. O tempo passa para todos, para uns menos e para outros parece passar mais. Os sorrisos continuam os mesmos e alguns rostos mais cansados. A agitação da capital é paralisada a cada caminhada na Redenção, nas variadas opções gastronômicas, na parada estratégica que é feita no banco da praça, no cafezinho do shopping, na conversa das senhoras.

Na casa dos meus pais também reencontro a minha infância e adolescência. Relembro fatos e reconheço móveis. Saúdo as coisas novas, as obras da casa, a mudança do sofá da sala, pois tudo está em constante evolução e temos que nos acostumar com a troca dos objetos. Que bom que os sentimentos e as pessoas permanecem acima e além do tempo.

Voltar é bom, mas precisa de um período de adaptação. Dias mais quentes que Gramado e o ritmo de vida frenético da capital. Novos rostos vão se somando aos conhecidos. É engraçado enfrentar sinaleiras e um trânsito difícil, mas também é curioso entrar no shopping center e poder escolher entre vários filmes para assistir. É bom saborear o pastel suíço da confeitaria Maomé e saber que o gosto continua sendo mesmo do passado. Melhor ainda é não precisar falar ao telefone com a mãe e a avó, pois elas estão ali perto.

Ao mesmo tempo, é estranho falar com a esposa por telefone, pois ela ficará em Gramado até sua formatura. Lembrar dos amigos gramadenses e saber que vou vê-los com menos frequência. Não deixa de ser curioso pensar que não vou ver mais o Desfile do Natal Luz da janela da sala e que os canteiros floridos da Borges estão a mais de 100 km da minha casa. Talvez neve não veja mais e acho que os bolinhos de batata da colônia ficaram como boas lembranças... Bom é lá, mas bom também foi aqui.

É pena que não se pode ter tudo que se deseja. A vida é sempre feita de opções e renuncias, mas o que é perene fica. Quero ficar com o pôr-do-sol, os shoppings e a família, mas também não abro mão do Festival de Cinema, do Natal Luz e dos amigos. Adoro a Redenção e o Parcão, mas para mim os lagos Negro e Joaquina Bier ficam mais próximos do que para os turistas. Sim, sinto no corpo calor escaldante da cidade grande, mas Gramado vem até mim quando escuto a voz da esposa ao telefone, aquecendo a alma.

Gramado e Porto Alegre, duas cidades no coração do poeta, onde não existem distâncias, nem pontes que separam o presente do passado. E o futuro é uma página em branco, mas que vai sendo escrita pelas lembranças onde as cores se mesclam em uma só, tais como as matizes do sol. O amanhã comporta sonhos de metrópole, mas com ares serranos. E os próximos anos espelham a cerração de Gramado com seu toque de nostalgia onde se descortina uma Rua da capital onde Praia não se tem, porém nela caminham pessoas ao sol e circulam livros a céu aberto, ao final de outubro.

Voltar é relembrar e o impossível parece acontecer. Ando pelo sol, mas ao mesmo tempo pela cerração. Entro no shopping e vejo a Rua Coberta. Abraço a família e sinto os amigos da cidade das hortênsias. O pensamento e a realidade são emoções que se encontram quando o coração recorda e os olhos, com a visão no futuro, alcançam vales da serra mais pertos do céu.

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