Ainda me lembro do distante ano de 2004, mais precisamente o dia 14 de maio, quando assumia como Assistente na Promotoria de Justiça de Gramado, após aprovação em um concurso público. Era um dia frio e chuvoso, mas eu e minha esposa estávamos chegando, com sonhos nas malas e esperança no coração. A alegria de poder morar na terra do Papai Noel, das azaléias, das hortênsias, do Festival de Cinema e do chocolate. A cidade do frio, do fondue e da neve, aquela que conhecíamos como turistas e que estávamos chegando de mala e cuia. A sensação que tínhamos era de que estávamos indo a uma sessão de cinema, mas que não sabíamos quem seriam os atores, como seria a história principal e como terminaria o filme. Compramos refrigerantes e pipocas, sentamos nas cadeiras e esperamos o início da sessão.
A sessão começava e não reconhecemos os atores do filme, nada nos parecia familiar. Eram processos penais e não cíveis que estava acostumado a trabalhar. A minha esposa tinha vontade de cursar a faculdade de Direito, mas precisava enfrentar o vestibular. Eu, ao lado das minhas atividades jurídicas, queria continuar o trabalho como poeta nesta cidade, que me parecia altamente inspiradora. E os amigos? Para nós eram aqueles que havíamos deixado em Porto Alegre, assim como a família, cujo contato se restringia a e-mails e telefonemas.
Com o passar do tempo, fomos nos acostumando com o filme, com novos atores, do qual integrávamos o elenco, com uma trilha sonora diferente, com os efeitos especiais da cerração e com as flores e cores que apareciam na tela. O navio nos conduziu até o alto mar e vimos ondas gigantescas, mas também chegou a época da bonança. A fé foi a nossa bússola. Cenas do filme vi e não gostei, bandidos que não eram atores, mas que matavam e furtavam na terra do Papai Noel e seus crimes viravam processos, condenações, folhas de papel que passavam pelas minhas mãos. O ideal do direito e da justiça motivou o estudo do vestibular da esposa e ela foi muita bem aprovada e já está se formando...
Quanto a mim busquei inspiração no tempo, nos altos pinheiros, no verde mais verde que os meus olhos já viram e na visão do alto da montanha até onde o meu olhar pudesse alcançar. Vieram novos poemas e novas rimas. Lancei um novo livro na Feira da Cidade, Cavalgada de Esperança. Como poeta fui convidado para dar oficinas literárias nas escolas, integrei a comissão organizadora de concurso literário, fui entrevistado no jornal mais importante da cidade, participei de exposições do grupo águia que ajudei a criar, declamei poemas em alguns saraus e fui convidado como colunista deste site. Multiplicaram os poemas e brotavam crônicas também. Comecei aqui a dar aulas de italiano. A cidade me acolhia como morador e assim se estabelecida uma relação poética incondicional com as hortênsias e sua hospitaleira gente.
Sim, os amigos que fiz em Porto Alegre e na Itália continuaram, mas vieram os amigos gramadenses, como uma benção divina. Amigos para vida toda e que nos acrescentaram muito como pessoas. Não poderia deixar de citar o casal Lisete Heidrich e Sergio Hohenturff. Ela, grande sensibilidade, artista plástica singular, cujo quadro de girassóis floresce na minha casa, em perene primavera. Ele, um leitor voraz, colecionador de DVD’s e filmes de cinema. A cada encontro com o casal, sobretudo na aprazível residência dos amigos, em meio à natureza, colhemos lições de vida, risos, receitas de culinária, DVD’s do André Rieu, relatos de viagens e tantas coisas boas. Pessoas maravilhosas e absolutamente imprescindíveis como amigos, lamento apenas não tê-los conhecido antes.
Outro casal que nos marcou profundamente foi Claudia Mazzonetto e Luiz Magno. Ela, lutadora, brincalhona e muito verdadeira e ele, um locutor de rádio, com uma simpatia invejável e espírito altruísta. Gente que é gente que abraça, ri e chora junto se preciso for, pessoas que guardarei sempre do lado esquerdo do peito. Literariamente falando, eu não poderia deixar de citar a Maria Helena Dreschler de Oliveira, Diretora do Centro de Cultura, pelo incentivo que sempre recebi como poeta, pelo apoio ao grupo literário e pela maneira gentil com que fui tratado.
A família Bauer nos marcou profundamente: Marcio, Neli, Daniel e Gabriel. Sim, foram várias jantas e churrascos juntos. O casal Neli e Márcio, além de grandes amigos, são também nossos compadres. Eu e Sandra batizamos o pequeno Gabriel, nosso querido afilhado, que anda por nossa casa, pintando e bordando e tirando minhas meias da gaveta. Lindo menino. Nosso afilhado, com nome de anjo, nos une indissoluvelmente a Gramado, ao batismo, a igreja central desta Cidade.
No trabalho também fiz amizades excelentes que perdurarão pela vida como o casal André e Melissa Zini, pessoas de caráter e de um valor inestimável. Amigos com A maiúsculo e que continuarão nos guiando pelo exemplo que nos deram. O colega Abel de Moraes, amigo sincero, admiração pela história de vida, por encarar a vida com bom humor e sempre muito prestativo. As estagiárias da Promotoria de Justiça também foram marcantes pela boa amizade desenvolvida entre tantos processos, inquéritos e atendimento ao público. E tantas pessoas boas, sinceras e camaradas que encontramos na vizinhança, na faculdade da esposa, no atendimento ao público, no foro da cidade...
Cinco anos se passaram desde o ano de 2004. O tempo da faculdade da esposa. De troca de governo. Tantos dias de chuva e cerração. Poucos dias de neve e de sol. Algumas pedras no caminho. Muitos fondues, pizzas e quilos a mais. Estou indo tranferido para Porto Alegre, pois preciso prosseguir na estrada.... O filme talvez tenha chegado ao fim, mas quando a história é boa se assiste muitas vezes para não esquecê-la. Muitas coisas boas levaremos na bagagem, na mala que estava vazia quando chegamos e que agora está cheia de belas lembranças. Fecho os olhos e vejo fogos de artifício. Ouço o eco dos sinos de natal. Aspiro o cheiro dos bolinhos de batata da Festa da Colônia. Sinto o calor fraterno de cada abraço recebido. Revivo minha tarde de autógrafos. Ah... Gramado!
Voltaremos para rever as flores, o afilhado, os amigos que nos ajudaram a subir a montanha. Aqui nunca seremos turistas, somos da casa. Obrigado, Gramado, por estes cinco anos de convívio. |  | |